Um de meus trabalhos mais recentes exigiu que fizesse algo que não tenho costume, que é retocar detalhes de pele dos fotografados.
Enquanto fazia a seleção e realizava o tratamento das imagens, me vi confrontado com duas questões que, volta e meia, passam pela minha cabeça:
- Qual será o limite ético do quanto posso modificar a imagem, sem remover características que fazem parte da identidade da pessoa?
- Será que estou adulterando as imagens, forjando algo que não tem relação alguma coisa com a realidade e, por conta disso, faço algo que é por si só condenável?
Antes de começar a revirar esses pontos, acho bom esclarecer um engano comum sobre o assunto: o Photoshop não é uma ferramenta mágica, como muito gente pensa. Não existe uma opção de “Remover olheiras” e “Apagar espinhas” que em um simples clique de mouse deixe as pessoas da foto com cara de bebê.
Corrigir imperfeições exige tempo, e costuma ser um ofício um tanto quanto tedioso. É por causa disso mesmo que tal tarefa não costuma fazer parte do meu fluxo de trabalho. Para se ter uma ideia de como não é coisa fácil, existem profissionais que trabalham exclusivamente com isso. Muitos fotógrafos terceirizam o tratamento mais rebuscado para retocadores especializados.
Sobre o limite do quanto se pode retocar a pele de alguém, ouvi certa vez de um amigo o seguinte: se algo não faz parte da minha pele por natureza, então pode ser removido. Por exemplo, aquela pinta de nascença embaixo da orelha fica, enquanto a espinha que apareceu bem na semana das fotos sai. Tal raciocínio me parece razoável, porém acho que ainda dá para irmos mais fundo.
Nem vou me atrever a entrar na questão do jornalismo, que abre todo um leque diferente de indagações. Mas fiquei sabendo que de uns tempos pra cá emissoras de televisão tem discutido também sobre esse tipo de coisa.
O amplo uso de televisores HD, em conjunto com as transmissões de alta definição promoveu um grande paradoxo: mais detalhes fazem com que os produtores não só devam ter mais cuidado com a construção de cenários e figurino, como também usem mais maquiagem para esconder os “defeitos” de pele e marcas de idade no rosto dos atores.
Se por um lado pagamos caro para termos acesso à tecnologia que permite uma reprodução de vídeo de “alta fidelidade”, por outro produtores e cinegrafistas se preocupam em não deixar que o conteúdo seja “reais” demais. Será que quem está por trás das câmeras é o vilão? Ou será que nós mesmos exigimos algo diferente daquilo que pensamos querer?
Certa vez ouvi de uma parente que ela não gostava de assistir documentários, pois não tinha paciência de assistir filmes com gente feia.
Conheço um documentário muito bacana, que trata de alguns pontos que são transversais à essa discussão. “Câmara Viajante” é um filme que sinaliza que talvez esse negócio de modificar imagens de pessoas não sejam algo tão particular da nossa cultura contemporânea pós-moderna.
O documentário aborda a arte da fotopintura no nordeste brasileiro, com certa ênfase nos depoimentos e trabalhos do famoso Mestre Júlio. A técnica mostrada permite que, além da conversão de pequenas fotos p/b velhas em grandes recriações em cores, o cliente também faça mudanças no retrato original, alterando cenários e até adicionando características ao retratado.
Há duas frases de Mestre Júlio que julgo especialmente interessantes:
“O retrato pintado é aquilo que você quer ser depois, não aquilo que você é.”
“Nós somos apenas interferidores.”
No fim das contas, tanto para o fotopinturista quanto para muitos dos fotógrafos atuais a “realidade” não importa muito. Quando fotografo, estou muito mais preocupado com a fantasia e com a forma como a pessoa deseja se lembrar de um determinado momento da vida dela.
Se for sincero comigo mesmo, tenho que admitir que, durante uma sessão, todas as minhas decisões artísticas e técnicas – distância focal da lente, ponto de vista, poses, orientações com relação ao figurino, maquiagem, iluminação, etc – tem por objetivo “torcer” a realidade naquilo que acredito que vai agradar esteticamente mais a mim e a quem me contrata. Até onde sei, isso que é arte.
É importante nos lembrarmos que cada sociedade tem enraizada em seu imaginário coletivo certos ideias de estética. Enquanto gueixas apertam os pés, africanas de várias tribos se pintam com barro para se embelezarem antes do casamento. Enquanto as brasileiras passam bronzeador na praia, muitas indianas fazem de tudo para manter a pele o mais branca possível, carregando uma sombrinha por onde quer que forem.
Se faz necessário levar em conta o referencial estético-cultural do cliente, afinal é daí que brotam suas expectativas com relação a sua própria imagem. É ele que paga pelo meu trabalho, ofício esse de onde vem meu sustento. Decepcioná-lo é dar tiro no pé. Se for pra retocar pele no Photoshop, que assim seja.
Isso quer dizer que vale tudo para nos moldarmos na aparência dos sonhos? Não.
É óbvio que a manipulação das imagens tem efeitos colaterais graves na sociedade.
Somos expostos à imagens de homens e mulheres “perfeitos” o tempo inteiro. E isso ocorre de forma tão constante e onipresente que acabamos nos esquecendo que elas se tratam de verdadeiras montagens. A representação de alguém em cada capa de revista de moda é fruto do trabalho de uma equipe de profissionais da aparência.
Aquilo que você vê é o melhor fragmento, polido, lapidado, de uma construção planejada para separar a pessoa representada de nós todos, meros mortais. É loucura se comparar ou ter algo assim como ideal, já que uma mera tentativa de assemelhação já seria injusta demais.
Por fim, a distorção repetida em larga escala promove um distanciamento entre a imagem que as pessoas constroem de si mesmas da impressão que elas deixam em quem as vê.
Seja como criadores de imagens ou consumidores de conteúdo, temos que estar atentos para sermos ponderados com relação a como as coisas são de fato, priorizando aquilo que é mais importante do que a beleza, como a saúde, por exemplo. Equilíbrio e honestidade são alguns dos princípios que podem nos proteger de nos tornarmos tanto fomentadores quanto vítimas da ilusão coletiva da aparência forjada.
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Câmera Viajante
Dove Retratos da Real Beleza (Versão Estendida)
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